Quando realizamos qualquer tipo de movimento, seja em
atividades do dia a dia ou durante a prática de exercícios físicos, nosso corpo
necessita de energia. Ter uma noção básica de onde essa energia vem ajuda
qualquer praticante a compreender melhor por que determinados exercícios são
realizados de certas formas.
Minha intenção com este texto é justamente essa:
apresentar, de maneira simples, como um complexo conjunto de reações
bioquímicas fornece energia para as contrações musculares e, assim, ajudá-lo a
entender melhor as razões por trás do planejamento de cada sessão de
treinamento.
Para isso, farei uma analogia entre os sistemas
energéticos do organismo e um dia de compras em um shopping center.
Imagine que você vai sair para um dia de compras
acompanhado(a) de um(a) amigo(a). Durante esse dia, você pretende fazer os
pagamentos em dinheiro, pois no shopping center para o qual você vai há uma
promoção para compras utilizando essa forma de pagamento. Agora, imagine que ir
ao shopping center e fazer as compras é o mesmo que completar uma sessão de
exercícios.
Você tem em dinheiro R$ 500, e este é o valor que terá
para comprar os produtos com o preço promocional. Esse valor no seu bolso é
como um composto existente dentro da célula muscular, que permite a contração
do músculo, assim como o dinheiro permite o pagamento de um produto. Esse
composto é chamado de trifosfato de adenosina (ATP); ele é a "moeda
corrente" de energia que seu corpo utiliza para gerar movimento. Somente
ele pode fornecer energia para os músculos, assim como você pagará o valor
promocional de um produto somente se o pagamento for feito em dinheiro.
Então, você chega ao shopping center e vai à primeira
loja. Lá, encontra um dos produtos que deseja. A marca encontrada é a melhor
que você poderia encontrar, e o produto custa R$ 500,00. Porém, esse é
exatamente o valor que você tem em dinheiro. Como deseja muito o produto e a
qualidade é a melhor possível, resolve comprá-lo. Assim, logo no início das
compras, de forma muito rápida, você fica sem dinheiro para continuar
comprando. Esta primeira compra representa os primeiros segundos da sessão de
exercício; para gerar as primeiras contrações musculares, você utiliza o ATP
que está armazenado nos seus músculos. Entretanto, a quantidade de ATP
existente fornece energia para apenas 1 a 3 segundos de contrações musculares.
Então, uma pergunta surge: como continuar o exercício se o ATP muscular
terminou? Assim como você se perguntaria: como continuar as compras se o
dinheiro em espécie acabou?
Ao sair da primeira loja, você encontra outro produto que
deseja. Ele custa R$ 1.000,00, mas seu dinheiro acabou. Nesse momento, seu(sua)
amigo(a) oferece pagar o produto em dinheiro para você, e você transfere o
valor por PIX. Como o produto vale a pena e você possui saldo suficiente para
reembolsá-lo(a), aceita a ajuda e conclui a compra sem gerar qualquer dívida. Da
mesma forma, após os primeiros segundos de exercício, o ATP utilizado precisa
ser rapidamente ressintetizado (novas moléculas de ATP são formadas). Para
isso, o organismo utiliza um sistema chamado ATP/CP, em que CP significa
creatina-fosfato. Esse sistema fornece energia de forma extremamente rápida e
eficiente durante aproximadamente 10 a 15 segundos, sem produzir subprodutos
que limitem imediatamente a continuidade do exercício. Esse sistema é uma fonte
de energia instantânea utilizada para continuar o exercício durante a sessão de
treinamento e também para atividades cotidianas, como subir escadas
rapidamente, correr para alcançar o ônibus ou atravessar a rua.
Sem dinheiro e sem saldo disponível, você decide ir
embora. No caminho para o estacionamento, encontra outro produto que deseja
comprar. Apesar de não possuir recursos imediatos, lembra-se de que pode
utilizar o cartão de crédito para sacar dinheiro em um caixa eletrônico. Você
sabe que isso gerará uma dívida futura, mas decide prosseguir com a compra. De
maneira semelhante, o organismo possui outro sistema para ressintetizar ATP: a
glicólise. Embora seja menos potente que o sistema ATP/CP, ela consegue
sustentar exercícios intensos por períodos maiores, geralmente entre 30
segundos e 3 minutos. Entretanto, essa estratégia tem um custo. Durante a
glicólise ocorre o acúmulo de metabólitos, entre eles os íons hidrogênio (H⁺), que contribuem para a diminuição
do pH muscular. Esse ambiente mais ácido
está associado à sensação de desconforto
e queimação durante exercícios intensos e pode dificultar a continuidade do esforço, já que dificulta a ressíntese de ATP.
Ao retomar o caminho para o estacionamento, você encontra
o produto que mais desejava comprar. Nesse momento, lembra-se de uma aplicação
financeira hipotética com liquidez imediata, que pode ser resgatada sem custos
adicionais. Você utiliza esse recurso para adquirir o produto e ainda quitar a
dívida gerada anteriormente. De forma semelhante, quando o exercício se
prolonga, o organismo passa a depender cada vez mais do sistema oxidativo. Esse
sistema produz energia mais lentamente do que os anteriores, mas é extremamente
eficiente e pode sustentar a ressíntese de ATP por longos períodos.
Além disso, sua utilização não provoca o mesmo acúmulo de
íons hidrogênio observado durante exercícios intensos sustentados pela
glicólise. Por isso, ele é predominante em atividades de longa duração e
intensidade leve a moderada, como caminhadas prolongadas, corridas de longa
distância e passeios de bicicleta.
Uma ressalva importante é que essa analogia simplifica o
funcionamento dos sistemas energéticos de ressíntese de ATP. Todos esses
sistemas funcionam simultaneamente e não são como gavetas que abrimos uma e
fechamos outra. Sua utilização depende, na realidade, do tipo, da intensidade e
da duração do movimento, fazendo com que um sistema seja utilizado em
determinados momentos de forma predominante sobre os outros.
Detalhes de cada um dos sistemas energéticos
Combustível utilizado
Cada um desses sistemas de ressíntese de ATP precisa de
um "combustível" para funcionar.
O sistema ATP/CP utiliza a CP (creatina-fosfato)
armazenada no músculo. A glicólise utiliza a glicose armazenada no músculo, no
fígado ou aquela disponível na corrente sanguínea. Por fim, o sistema oxidativo
pode utilizar tanto a glicose quanto as gorduras armazenadas no tecido adiposo.
A presença de oxigênio
O sistema ATP/CP e a glicólise não dependem diretamente
da presença de oxigênio para produzir energia. Por isso, são chamados de
sistemas anaeróbios. Já o sistema oxidativo necessita de oxigênio para que suas
reações ocorram adequadamente.
Quando iniciamos um exercício, a demanda muscular por
energia aumenta imediatamente. Entretanto, o fornecimento de oxigênio não
acompanha esse aumento de forma instantânea. Durante esse período de ajuste, os
sistemas anaeróbios têm maior participação na ressíntese de ATP.
À medida que o sistema cardiovascular aumenta o
fornecimento de oxigênio aos músculos, cresce também a participação do sistema
oxidativo na produção de energia.
Papel da intensidade do exercício
O sistema ATP/CP é capaz de fornecer energia na maior
velocidade possível e, por isso, predomina em esforços de intensidade máxima.
Contudo, sua duração é limitada a aproximadamente 10 a 15 segundos.
A glicólise fornece energia em alta velocidade e torna-se
predominante em exercícios intensos que duram, aproximadamente, entre 30
segundos e 3 minutos. Isso ocorre porque, como vimos na analogia apresentada
anteriormente, a glicólise aumenta a quantidade de íons hidrogênio, dificultando
a ressíntese de ATP. Se a intensidade for mantida, é provável que o exercício
seja interrompido devido à fadiga.
Já o sistema oxidativo produz energia em menor
velocidade, mas consegue sustentá-la por períodos prolongados. Por essa razão,
predomina em exercícios de longa duração realizados em intensidades moderadas
ou baixas. Quando a intensidade do exercício permite sua realização por mais de
três minutos sem provocar acúmulo excessivo de íons hidrogênio, o oxigênio
consegue chegar adequadamente aos músculos, permitindo que o sistema oxidativo
se torne a principal fonte de ressíntese de ATP.
Em resumo, quanto maior a intensidade do exercício, maior
tende a ser a participação dos sistemas ATP/CP e glicolítico. Quanto menor a
intensidade e maior a duração do esforço, maior tende a ser a contribuição do
sistema oxidativo.
Não são como as gavetas de uma cômoda
Anteriormente, foi mencionado que os sistemas energéticos
não funcionam como gavetas que são abertas e fechadas individualmente. Uma
analogia mais adequada é imaginá-los como três torneiras abertas ao mesmo
tempo, porém com fluxos de água diferentes.
Nos primeiros 30 segundos de um exercício, a torneira
mais aberta é a do sistema ATP/CP, enquanto a da glicólise apresenta um fluxo
mais restrito e a do sistema oxidativo permite apenas um pequeno fluxo de água.
Entre 30 segundos e 3 minutos, a torneira do ATP/CP
começa a se fechar, a da glicólise passa a apresentar o maior fluxo e a do
sistema oxidativo se abre gradualmente. À medida que o exercício se prolonga, a
torneira do sistema oxidativo torna-se a predominante, enquanto as outras duas
passam a apresentar fluxos bastante reduzidos.
Vale ressaltar que, em última instância, o principal
fator que determina qual torneira terá o maior fluxo é a intensidade do
exercício. Imagine que você esteja caminhando há cerca de 20 minutos e, então,
resolva dar um "pique" (uma corrida curta e muito rápida). Nesse
momento, o fluxo da torneira do sistema ATP/CP aumenta significativamente; o da
glicólise também aumenta, porém em menor proporção; enquanto o do sistema
oxidativo diminui.
Se, após esse pique, você continuar correndo em uma velocidade menor, o fluxo do ATP/CP será reduzido e o da glicólise aumentará. Em seguida, ao voltar a caminhar, o fluxo predominante passará novamente a ser o do sistema oxidativo.

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