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Mais de 4 horas por semana: o hábito simples que aumenta a sobrevida após o câncer

Sem tempo para ler tudo? Aqui está o resumo em 1 minuto!

O câncer continua sendo uma das doenças que mais impactam a vida das pessoas e de suas famílias. Diante disso, a ciência busca constantemente formas de tratamento mais eficientes e estratégias capazes de reduzir o risco de seu desenvolvimento.
Entre essas estratégias está a prática regular de exercícios físicos. Estudos realizados ao longo das últimas décadas mostram que pessoas fisicamente ativas tendem a apresentar menor risco de desenvolver alguns tipos de câncer, especialmente os de mama, cólon, endométrio, rim, bexiga, esôfago e estômago.
Além disso, em alguns casos, o exercício parece trazer benefícios mesmo após o diagnóstico. Pacientes com câncer de cólon que mantiveram uma rotina regular de atividade física após o tratamento apresentaram melhores resultados relacionados à sobrevida e à permanência sem sinais da doença.
Os pesquisadores ainda procuram compreender exatamente como isso acontece. Alguns estudos mostram que uma única sessão de exercício pode gerar alterações temporárias no organismo capazes de dificultar a proliferação de células cancerígenas em modelos experimentais. Embora esses efeitos sejam transitórios, é possível que sua repetição ao longo de meses e anos contribua para criar um ambiente menos favorável ao desenvolvimento da doença.
Os benefícios não parecem estar restritos a exercícios intensos. Caminhadas, atividades aeróbicas moderadas e exercícios de força também têm sido associados a resultados positivos em diferentes pesquisas.
Apesar dos avanços, ainda não é possível afirmar que o exercício, isoladamente, previna o câncer ou explique todos os benefícios observados. O que as evidências mostram de forma consistente é que manter-se fisicamente ativo está associado a uma melhor saúde geral e pode contribuir para reduzir o risco de alguns tipos de câncer e melhorar o prognóstico em determinadas situações.
Em outras palavras, o exercício não deve ser visto como uma garantia contra o câncer, mas como mais uma ferramenta importante dentro de um conjunto de hábitos que favorecem a saúde e a qualidade de vida.

Para quem deseja se aprofunda na ciênca

O câncer, sem dúvida alguma, é uma doença de impacto significativo sobre a vida de uma pessoa e de todos à sua volta. É também uma dura guerra travada pelo corpo humano contra um oponente impiedoso, algumas vezes vencida, outras não. Desde a década de 1940, quando o pesquisador Sidney Farber descobriu os primeiros medicamentos quimioterápicos, a busca por tratamentos eficientes e formas de prevenção esteve sempre na pauta da ciência. Dentre as possíveis formas de prevenção está o exercício, e é sobre esse tema que pretendo tratar nesta postagem.

Estima-se que até 2028 possam ocorrer 781 mil novos casos de câncer no Brasil [1], sendo aproximadamente 518 mil quando excluídos os tumores de pele não melanoma. O câncer de próstata (30,5%), o de cólon e reto (10,3%), o de pulmão (7,3%), o de estômago (5,4%) e o de cavidade oral (4,8%) são os mais frequentes entre os brasileiros. Já entre as mulheres, destacam-se os de mama (30,0%), cólon e reto (10,5%), colo do útero (7,4%), pulmão (6,4%) e glândula tireoide (5,1%).Podemos considerar que existem diferentes mecanismos plausíveis pelos quais a atividade física pode influenciar o risco de câncer e/ou ser uma ferramenta preventiva contra os tumores de mama, cólon, endométrio, rim, bexiga, esôfago e estômago [2]. Também é provável que a atividade física, antes e depois do diagnóstico, seja relevante para melhorar a sobrevida, trazendo benefícios em termos de mortalidade.

Modelos animais [3] mostram que o exercício é capaz de gerar uma redução significativa no crescimento tumoral em indivíduos exercitados, em comparação àqueles que não o são. A prática regular de atividade física está associada à redução do risco de desenvolvimento de diversos tipos de câncer. A análise [4] de 45 revisões sistemáticas, meta-análises e análises agrupadas, abrangendo centenas de estudos epidemiológicos, mostrou fortes evidências associando a atividade física à redução do risco de câncer de bexiga, mama, cólon, endométrio, adenocarcinoma esofágico, rim e estômago, com reduções de risco variando de aproximadamente 10% a 20%.

Pacientes que concluem o tratamento para o câncer de cólon de estágio III e praticam atividades aeróbicas por quatro ou mais horas por semana podem apresentar uma sobrevida livre da doença significativamente superior à dos pacientes que praticam três horas ou menos por semana [5].Essa influência positiva do exercício sobre o câncer de cólon foi reforçada recentemente por um estudo [6] clínico randomizado, envolvendo 55 centros de pesquisa.

O estudo analisou a influência de duas estratégias relacionadas ao exercício sobre a sobrevida livre da doença de pacientes com câncer de cólon removido cirurgicamente que também haviam concluído a quimioterapia. Um total de 889 pacientes foi randomizado para o grupo de exercícios (445 pacientes) ou para o grupo de educação em saúde (444 pacientes). O grupo de exercícios (GExerc) participou de um programa estruturado, enquanto o grupo de educação em saúde (GEdu) recebeu orientação sobre exercício e saúde.

O programa estruturado de exercícios tinha como objetivo promover a prática de atividades aeróbicas que superassem 3 horas de caminhada moderada por semana. As duas formas de intervenção tiveram duração de 3 anos, e todos os pacientes foram acompanhados por 8 anos. A sobrevida livre de doença em 5 anos foi de 80,3% no GExerc e de 73,9% no GEdu; a comparação desses valores mostra uma sobrevida global mais longa no GExerc do que no GEdu. Quando a comparação foi realizada para 8 anos, a sobrevida global foi de 90,3% no GExerc e de 83,2% no GEdu. Os autores concluíram, então, que um programa estruturado de exercícios de 3 anos, iniciado logo após a quimioterapia para câncer de cólon, resultou em sobrevida livre de doença e sobrevida global significativamente maiores do que as alcançadas somente com educação em saúde.

Possível mecanismo de proteção

As evidências mostram que o exercício reduz a proliferação de células cancerígenas [7, 8], redução esta que acontece como um efeito agudo da atividade física. Pessoas que se recuperaram de um câncer colorretal completaram dois regimes de exercício: um agudo ou um crônico [7]. O regime agudo de exercício foi composto por um exercício intervalado de alta intensidade (EIAI), realizado na faixa de 85% a 95% da frequência cardíaca máxima. Esse exercício foi realizado durante 4 minutos e repetido quatro vezes em cada sessão. O regime “crônico" avaliou amostras de soro em repouso, coletadas antes e depois de 4 semanas (12 sessões) do treinamento EIAI. O EIAI gerou redução significativa do número de células logo após o exercício, porém essa redução não ocorreu 2 horas após o final da sessão.

Referência [7]

Em outro estudo [8] que avaliou os efeitos do exercício sobre as células cancerígenas, amostras de sangue foram coletadas de 16 homens fisicamente inativos, com idade igual ou superior a 50 anos, índice de massa corporal igual ou maior que 25 kg/m² e fatores de risco relacionados ao estilo de vida para câncer de cólon. Foi realizada uma sessão de exercício aeróbico intervalado (EAI) com intensidade de 60% da frequência cardíaca de reserva, dividida em 6 séries de 5 minutos. Imediatamente após o exercício, a proliferação de células cancerígenas foi reduzida significativamente.

Referência [8]

Os resultados dos trabalhos citados [7, 8], mesmo induzindo a um efeito agudo positivo e transitório do exercício sobre as células cancerígenas em modelos experimentais, mostraram que o treinamento de até 12 semanas não gerou alterações no número de células medido em repouso. Os dados mostram alterações sistêmicas transitórias após uma sessão de exercício que, talvez, possam gerar benefícios agudos repetidos, levando a um quadro geral desfavorável ao crescimento de células cancerígenas do cólon. Esse cenário poderia explicar a redução do risco de câncer descrita pelos trabalhos observacionais [2].

Influência do tipo de exercício

Os estudos que demonstraram redução na proliferação de células cancerígenas no cólon [6, 7, 8] usaram exercícios de resistência (aeróbicos), como caminhada (6) e ciclismo (7, 8), com intensidade que variou entre 60% [8] e 95% [7] da frequência cardíaca máxima. Mas os exercícios resistidos ou de força poderiam trazer benefícios semelhantes?

O treinamento de força, com duração de 12 semanas e frequência de 3 vezes por semana, mostrou-se capaz de gerar um efeito considerado benéfico devido ao seu potencial supressor do câncer, inibindo o crescimento de células cancerígenas em sobreviventes de câncer de mama [9]. O treinamento de força também pode ser positivo para o câncer de próstata, pois tem o potencial de reduzir os efeitos promotores de crescimento tumoral em pacientes com esse tipo de patologia (10).

Apesar de um potencial efeito positivo sobre as células cancerígenas, o treinamento de força não demonstrou influência sobre os efeitos colaterais gastrointestinais gerados pelo tratamento quimioterápico do câncer de cólon [11]. Outro aspecto importante é que, durante o tratamento, o declínio físico gerado pela sarcopenia pode impactar negativamente os resultados pós-operatórios de pacientes com câncer colorretal, bem como a sobrevida global, a sobrevida livre de doença, a sobrevida livre de recorrência e a sobrevida específica para a doença [12]. Infelizmente, a alocação aleatória para treinamento resistido domiciliar não impediu o declínio da função física durante a quimioterapia entre sobreviventes de câncer de cólon com função física originalmente alta [13].

Considerações finais

Os estudos observacionais apontam associações consistentes entre o exercício e a redução do risco de diferentes formas de câncer. Parte desse efeito pode refletir diferenças de estilo de vida entre indivíduos ativos e sedentários. Estes também mostram que a participação em programas de treinamento tem o potencial de aumentar a sobrevida livre da doença e a sobrevida global após o tratamento quimioterápico.

O mecanismo por trás dessa redução do risco e aumento da sobrevida livre da doença ainda não pode ser definido com certeza. Mesmo que o exercício tenha demonstrado a capacidade de reduzir a proliferação e o crescimento das células cancerígenas, como um efeito agudo após uma sessão, ele não demonstrou a mesma capacidade como uma alteração crônica que pudesse levar a esse mesmo resultado de forma permanente.

É importante ressaltar que os benefícios não se restringem ao EIAI e também aparecem com exercícios moderados. Não existe evidência de que toda pessoa precise realizar treinamento intervalado de alta intensidade.

Referências

[1] Instituto Nacional de Câncer (Brasil). Estimativa 2026: incidência de câncer no Brasil / Instituto Nacional de Câncer. – Rio de Janeiro: INCA, 2026.

[2] Pate AV, et al. 2019. American College of Sports Medicine Roundtable Report on Physical Activity, Sedentary Behavior, and Cancer Prevention and Control. DOI: 10.1249/MSS.0000000000002117

[3] Eschke RK, at al. 2019. Impact of Physical Exercise on Growth and Progression of Cancer in Rodents-A Systematic Review and Meta-Analysis. DOI: 10.3389/fonc.2019.00035

[4] Department of Health and Human Services; 2018. Physical Activity Guidelines Advisory Committee. Physical Activity Guidelines Advisory Committee Scientific Report. Acessado em 8/6/2026.

[5] Meyerhardt JA, et al. 2006. Impact of physical activity on cancer recurrence and survival in patients with stage III colon cancer: findings from CALGB 89803. DOI: 10.1200/JCO.2006.06.0863

[6] Courneya KS, et al. Structured Exercise after Adjuvant Chemotherapy for Colon Cancer. DOI: 10.1056/NEJMdo008038

[7] Devin, et al. 2019. Acute high intensity interval exercise reduces colon cancer cell growth. DOI: 10.1113/JP277648

[8] Orange ST, et al. 2022. Acute aerobic exercise-conditioned serum reduces colon cancer cell proliferation in vitro through interleukin-6-induced regulation of DNA damage. DOI: 10.1002/ijc.33982

[9] Betteriga F, et al. 2026. Effects of Resistance versus High-Intensity Interval Training on Myokines and Cancer Cell Suppression in Breast Cancer Survivors: A Randomized Trial. DOI: 10.1249/MSS.0000000000003848

[10]  Papadopoulos E, et al. 2021. High-intensity interval training or resistance training versus usual care in men with prostate cancer on active surveillance: a 3-arm feasibility randomized controlled trial. DOI: 10.1139/apnm-2021-0365

[11] Lee S, et al. 2025. Impact of resistance training on inflammatory biomarkers and associations with treatment outcomes in colon cancer. DOI: 10.1002/cncr.35865

[12] Vergara-Fernandez O, et al. 2020. Sarcopenia in patients with colorectal cancer: A comprehensive review. DOI: 10.12998/wjcc.v8.i7.1188

[13] Brown JC, et al. 2024. Effect of resistance training on physical function during chemotherapy in colon cancer. DOI: 10.1093/jncics/pkae058


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