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O câncer
continua sendo uma das doenças que mais impactam a vida das pessoas e de suas
famílias. Diante disso, a ciência busca constantemente formas de tratamento
mais eficientes e estratégias capazes de reduzir o risco de seu
desenvolvimento.
Entre essas
estratégias está a prática regular de exercícios físicos. Estudos realizados ao
longo das últimas décadas mostram que pessoas fisicamente ativas tendem a
apresentar menor risco de desenvolver alguns tipos de câncer, especialmente os
de mama, cólon, endométrio, rim, bexiga, esôfago e estômago.
Além disso, em
alguns casos, o exercício parece trazer benefícios mesmo após o diagnóstico.
Pacientes com câncer de cólon que mantiveram uma rotina regular de atividade
física após o tratamento apresentaram melhores resultados relacionados à
sobrevida e à permanência sem sinais da doença.
Os
pesquisadores ainda procuram compreender exatamente como isso acontece. Alguns
estudos mostram que uma única sessão de exercício pode gerar alterações
temporárias no organismo capazes de dificultar a proliferação de células
cancerígenas em modelos experimentais. Embora esses efeitos sejam transitórios,
é possível que sua repetição ao longo de meses e anos contribua para criar um
ambiente menos favorável ao desenvolvimento da doença.
Os benefícios
não parecem estar restritos a exercícios intensos. Caminhadas, atividades
aeróbicas moderadas e exercícios de força também têm sido associados a
resultados positivos em diferentes pesquisas.
Apesar dos
avanços, ainda não é possível afirmar que o exercício, isoladamente, previna o
câncer ou explique todos os benefícios observados. O que as evidências mostram
de forma consistente é que manter-se fisicamente ativo está associado a uma
melhor saúde geral e pode contribuir para reduzir o risco de alguns tipos de
câncer e melhorar o prognóstico em determinadas situações.
Em outras
palavras, o exercício não deve ser visto como uma garantia contra o câncer, mas
como mais uma ferramenta importante dentro de um conjunto de hábitos que
favorecem a saúde e a qualidade de vida.
Para quem deseja se aprofunda na ciênca
O câncer, sem
dúvida alguma, é uma doença de impacto significativo sobre a vida de uma pessoa
e de todos à sua volta. É também uma dura guerra travada pelo corpo humano
contra um oponente impiedoso, algumas vezes vencida, outras não. Desde a década
de 1940, quando o pesquisador Sidney Farber descobriu os primeiros medicamentos
quimioterápicos, a busca por tratamentos eficientes e formas de prevenção
esteve sempre na pauta da ciência. Dentre as possíveis formas de prevenção está
o exercício, e é sobre esse tema que pretendo tratar nesta postagem.
Estima-se que
até 2028 possam ocorrer 781 mil novos casos de câncer no Brasil [1], sendo
aproximadamente 518 mil quando excluídos os tumores de pele não melanoma. O
câncer de próstata (30,5%), o de cólon e reto (10,3%), o de pulmão (7,3%), o de
estômago (5,4%) e o de cavidade oral (4,8%) são os mais frequentes entre os
brasileiros. Já entre as mulheres, destacam-se os de mama (30,0%), cólon e reto
(10,5%), colo do útero (7,4%), pulmão (6,4%) e glândula tireoide (5,1%).Podemos
considerar que existem diferentes mecanismos plausíveis pelos quais a atividade
física pode influenciar o risco de câncer e/ou ser uma ferramenta preventiva
contra os tumores de mama, cólon, endométrio, rim, bexiga, esôfago e estômago [2]. Também é provável que a atividade física, antes e depois do diagnóstico,
seja relevante para melhorar a sobrevida, trazendo benefícios em termos de
mortalidade.
Modelos
animais [3] mostram que o exercício é capaz de gerar uma redução significativa
no crescimento tumoral em indivíduos exercitados, em comparação àqueles que não
o são. A prática regular de atividade física está associada à redução do risco
de desenvolvimento de diversos tipos de câncer. A análise [4] de 45 revisões
sistemáticas, meta-análises e análises agrupadas, abrangendo centenas de
estudos epidemiológicos, mostrou fortes evidências associando a atividade
física à redução do risco de câncer de bexiga, mama, cólon, endométrio, adenocarcinoma
esofágico, rim e estômago, com reduções de risco variando de aproximadamente
10% a 20%.
Pacientes que
concluem o tratamento para o câncer de cólon de estágio III e praticam
atividades aeróbicas por quatro ou mais horas por semana podem apresentar uma
sobrevida livre da doença significativamente superior à dos pacientes que
praticam três horas ou menos por semana [5].Essa influência positiva do
exercício sobre o câncer de cólon foi reforçada recentemente por um estudo [6] clínico randomizado, envolvendo 55 centros de pesquisa.
O estudo
analisou a influência de duas estratégias relacionadas ao exercício sobre a
sobrevida livre da doença de pacientes com câncer de cólon removido
cirurgicamente que também haviam concluído a quimioterapia. Um total de 889
pacientes foi randomizado para o grupo de exercícios (445 pacientes) ou para o
grupo de educação em saúde (444 pacientes). O grupo de exercícios (GExerc)
participou de um programa estruturado, enquanto o grupo de educação em saúde
(GEdu) recebeu orientação sobre exercício e saúde.
O programa
estruturado de exercícios tinha como objetivo promover a prática de atividades
aeróbicas que superassem 3 horas de caminhada moderada por semana. As duas
formas de intervenção tiveram duração de 3 anos, e todos os pacientes foram
acompanhados por 8 anos. A sobrevida livre de doença em 5 anos foi de 80,3% no
GExerc e de 73,9% no GEdu; a comparação desses valores mostra uma sobrevida
global mais longa no GExerc do que no GEdu. Quando a comparação foi realizada
para 8 anos, a sobrevida global foi de 90,3% no GExerc e de 83,2% no GEdu. Os
autores concluíram, então, que um programa estruturado de exercícios de 3 anos,
iniciado logo após a quimioterapia para câncer de cólon, resultou em sobrevida
livre de doença e sobrevida global significativamente maiores do que as
alcançadas somente com educação em saúde.
Possível mecanismo de proteção
As evidências
mostram que o exercício reduz a proliferação de células cancerígenas [7, 8],
redução esta que acontece como um efeito agudo da atividade física. Pessoas que
se recuperaram de um câncer colorretal completaram dois regimes de exercício:
um agudo ou um crônico [7]. O regime agudo de exercício foi composto por um
exercício intervalado de alta intensidade (EIAI), realizado na faixa de 85% a
95% da frequência cardíaca máxima. Esse exercício foi realizado durante 4
minutos e repetido quatro vezes em cada sessão. O regime “crônico" avaliou
amostras de soro em repouso, coletadas antes e depois de 4 semanas (12 sessões)
do treinamento EIAI. O EIAI gerou redução significativa do número de células
logo após o exercício, porém essa redução não ocorreu 2 horas após o final da
sessão.
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| Referência [7] |
Em outro estudo [8] que avaliou os efeitos do exercício sobre as células cancerígenas, amostras de sangue foram coletadas de 16 homens fisicamente inativos, com idade igual ou superior a 50 anos, índice de massa corporal igual ou maior que 25 kg/m² e fatores de risco relacionados ao estilo de vida para câncer de cólon. Foi realizada uma sessão de exercício aeróbico intervalado (EAI) com intensidade de 60% da frequência cardíaca de reserva, dividida em 6 séries de 5 minutos. Imediatamente após o exercício, a proliferação de células cancerígenas foi reduzida significativamente.
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| Referência [8] |
Os resultados dos trabalhos citados [7, 8], mesmo induzindo a um efeito agudo positivo e transitório do exercício sobre as células cancerígenas em modelos experimentais, mostraram que o treinamento de até 12 semanas não gerou alterações no número de células medido em repouso. Os dados mostram alterações sistêmicas transitórias após uma sessão de exercício que, talvez, possam gerar benefícios agudos repetidos, levando a um quadro geral desfavorável ao crescimento de células cancerígenas do cólon. Esse cenário poderia explicar a redução do risco de câncer descrita pelos trabalhos observacionais [2].
Influência do tipo de exercício
Os estudos que
demonstraram redução na proliferação de células cancerígenas no cólon [6, 7, 8] usaram exercícios de resistência (aeróbicos), como caminhada (6) e ciclismo (7,
8), com intensidade que variou entre 60% [8] e 95% [7] da frequência cardíaca máxima.
Mas os exercícios resistidos ou de força poderiam trazer benefícios
semelhantes?
O treinamento
de força, com duração de 12 semanas e frequência de 3 vezes por semana,
mostrou-se capaz de gerar um efeito considerado benéfico devido ao seu
potencial supressor do câncer, inibindo o crescimento de células cancerígenas
em sobreviventes de câncer de mama [9]. O treinamento de força também pode ser
positivo para o câncer de próstata, pois tem o potencial de reduzir os efeitos
promotores de crescimento tumoral em pacientes com esse tipo de patologia (10).
Apesar de um
potencial efeito positivo sobre as células cancerígenas, o treinamento de força
não demonstrou influência sobre os efeitos colaterais gastrointestinais gerados
pelo tratamento quimioterápico do câncer de cólon [11]. Outro aspecto
importante é que, durante o tratamento, o declínio físico gerado pela
sarcopenia pode impactar negativamente os resultados pós-operatórios de
pacientes com câncer colorretal, bem como a sobrevida global, a sobrevida livre
de doença, a sobrevida livre de recorrência e a sobrevida específica para a
doença [12]. Infelizmente, a alocação aleatória para treinamento resistido
domiciliar não impediu o declínio da função física durante a quimioterapia
entre sobreviventes de câncer de cólon com função física originalmente alta
[13].
Considerações finais
Os estudos
observacionais apontam associações consistentes entre o exercício e a redução
do risco de diferentes formas de câncer. Parte desse efeito pode refletir
diferenças de estilo de vida entre indivíduos ativos e sedentários. Estes também
mostram que a participação em programas de treinamento tem o potencial de
aumentar a sobrevida livre da doença e a sobrevida global após o tratamento
quimioterápico.
O mecanismo
por trás dessa redução do risco e aumento da sobrevida livre da doença ainda
não pode ser definido com certeza. Mesmo que o exercício tenha demonstrado a
capacidade de reduzir a proliferação e o crescimento das células cancerígenas,
como um efeito agudo após uma sessão, ele não demonstrou a mesma capacidade
como uma alteração crônica que pudesse levar a esse mesmo resultado de forma
permanente.
É importante
ressaltar que os benefícios não se restringem ao EIAI e também aparecem com
exercícios moderados. Não existe evidência de que toda pessoa precise realizar
treinamento intervalado de alta intensidade.
Referências
[1] Instituto Nacional de Câncer
(Brasil). Estimativa 2026: incidência de câncer
no Brasil / Instituto Nacional de Câncer. – Rio de Janeiro: INCA, 2026.
[2]
Pate AV, et al. 2019. American College of Sports Medicine Roundtable Report on
Physical Activity, Sedentary Behavior, and Cancer Prevention and Control. DOI:
10.1249/MSS.0000000000002117
[3]
Eschke RK, at al. 2019. Impact of Physical Exercise on Growth and Progression
of Cancer in Rodents-A Systematic Review and Meta-Analysis. DOI:
10.3389/fonc.2019.00035
[4]
Department of Health and Human Services; 2018. Physical
Activity Guidelines Advisory Committee. Physical Activity Guidelines Advisory
Committee Scientific Report. Acessado em 8/6/2026.
[5]
Meyerhardt JA, et al. 2006. Impact of physical activity on cancer recurrence
and survival in patients with stage III colon cancer: findings from CALGB
89803. DOI:
10.1200/JCO.2006.06.0863
[6] Courneya
KS, et al. Structured Exercise after Adjuvant Chemotherapy for Colon Cancer. DOI:
10.1056/NEJMdo008038
[7] Devin, et al. 2019. Acute high
intensity interval exercise reduces colon cancer cell growth. DOI: 10.1113/JP277648
[8]
Orange ST, et al. 2022.
Acute aerobic exercise-conditioned serum reduces colon cancer cell
proliferation in vitro through interleukin-6-induced regulation of DNA damage. DOI: 10.1002/ijc.33982
[9] Betteriga F, et al. 2026. Effects of Resistance versus
High-Intensity Interval Training on Myokines and Cancer Cell Suppression in
Breast Cancer Survivors: A Randomized Trial. DOI:
10.1249/MSS.0000000000003848
[10] Papadopoulos E, et al. 2021. High-intensity
interval training or resistance training versus usual care in men with prostate
cancer on active surveillance: a 3-arm feasibility randomized controlled trial.
DOI:
10.1139/apnm-2021-0365
[11] Lee S, et al. 2025. Impact of resistance training on
inflammatory biomarkers and associations with treatment outcomes in colon
cancer. DOI: 10.1002/cncr.35865
[12] Vergara-Fernandez O, et al. 2020. Sarcopenia
in patients with colorectal cancer: A comprehensive review. DOI: 10.12998/wjcc.v8.i7.1188
[13]
Brown JC, et al. 2024. Effect of resistance training on physical function
during chemotherapy in colon cancer. DOI:
10.1093/jncics/pkae058




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